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Projeto: Regra de Ouro
Texto n° 01
Maio 2010
BULLYING: AGRESSIVIDADE EM TEMPOS MODERNOS
Não podemos ver o Bullying como um ato de violência física ou psicológica, intencional e repetida de acordo com o seu significado mais difundido.
Principalmente não podemos associá-los a atitude estritamente de criança e adolescentes.
O bullying é um comportamento agressivo e destrutivo inerente ao ser humano e que ocorre em vários contextos: escola, trabalho, vizinhança e países... implicado nas relações entre os indivíduos. A escola que hoje recebe a maior atenção nesse aspecto é, sim, responsável, pelo que acontece dentro dos muros, mas não é incentivadora do movimento.
A necessidade de controlar, dominar e exercer poder sobre o outro é histórica e ocorre desde os primórdios da civilização, fazendo parte da natureza humana em busca da classe dominante, da superpotência, sempre impondo em contrapartida a impotência, fragilidade e medo.
Há quanto tempo se fala sobre os fortes e fracos? 1º mundo e o resto do mundo? Desde quando se determinam padrões de beleza e inteligência? A quem serve o capitalismo e o consumismo? Todos esses padrões de comportamento aprisionam, oprimem, desqualificam, desvalorizam, agridem a alma do ser humano impondo medo, angustia e gerando ódio, enfim, reprimindo sentimentos.
Como reagimos a estas pressões? Com violência e agressividade, com o intuito de ferir para se proteger. Portanto, o bullying surge hoje como algo novo, porém, reproduz atitudes antigas que sempre permearam as relações humanas como: desrespeito, autoritarismo, isolamento social, agressividade e intolerância.
Cabe salientar que tal comportamento é mais visível e grave em países dominantes e poderosos como EUA e Inglaterra, embora aconteça em diferentes proporções no mundo todo; é o reflexo dos atos velados da violência social e emocional a que estamos expostos diariamente na humanidade. Entendemos que a ação e os efeitos do bulliyng são necessários para estabelecer o equilíbrio e a ordem social, porém nos choca e assusta pela intensidade e o modo como acontecem.
É nítido que precisemos compreender e buscar medidas para sensibilizar e conscientizar vítimas e agressores deste sistema.
Há necessidade iminente de buscarmos um novo olhar para os indivíduos/ sociedade e contribuirmos com programas e projetos que envolvam ações conjuntas e compartilhadas, com foco na solidariedade, tolerância, respeito às diferenças e saberes, no diálogo, na construção da cidadania através de escuta qualificada e reflexiva.
Cleide Castelo Branco – Psiquiatra clínica e psicoterapeuta;
Geisa Machado – Psicanalista clínica;
Maria Amélia Xavier de Souza – Psicóloga.
Jornal da Escola Particular |

Projeto: Regra de Ouro
Texto n° 02
Junho 2010

O Papel da Família
Os pais, de alguma forma, contribuem para a descoberta da razão de existir. É numa estrutura familiar sólida que a criança e o adolescente vão suprir suas necessidades de amor, de valorização, de limites e de coerência. Valores que contribuem para o desenvolvimento de habilidades de autodefesa e de autoafirmação.
No que se refere à família, não há receitas prontas de sucesso, tampouco modelos específicos de educação. Nascemos numa família que pode ser tradicional, formada por pai, mãe e filhos vivendo num mesmo ambiente chamado lar, ou pode ser de pais e mães divorciados, ou viúvos, que criam seus filhos sozinhos, pensando ou não se casar de novo. Também pode ser um ambiente familiar onde os pais criam seus filhos acompanhados de um novo cônjuge, que assume filhos de outros, frutos de um relacionamento familiar em que seus filhos são criados pelos avós ou por outras pessoas. Os diferentes modelos são frutos de arranjos e demandas contemporâneas.
Independentemente de sua configuração, a família nunca deixará de ser a referência mais importante para o indivíduo. É fundamental considerar que os pais são os principais modelos de identificação dos filhos. Machado de Assis já afirmava que “o menino é pai do homem”, e esse homem é filho dos sonhos do menino, dos desejos, das escolhas, das oportunidades, dos modelos observados.
O amor é um sentimento que brota da necessidade de privacidade, mas que conserva a noção de cumplicidade e amizade. Do amor nasce a relação de confiança, cumplicidade e responsabilidade com a vida do outro. Sentimento que sustenta a teia de relações e gera reflexos positivos em todos os demais segmentos sociais. As interações amorosas existentes na família não são apenas um processo natural; apesar de serem parte da existência humana, necessitam ser aprendidas pela vivência e pelo exercício diário para que se tornem elementos do cotidiano. Quando a família abre mão desse aprendizado, abre também espaço para a violência, para as atitudes que enfraquecem e isolam atrás das grades, muralhas e guaritas. A violência que invade o espaço familiar se expande para todos os outros segmentos da sociedade como uma teia de relações destrutivas que se reproduz e contamina os ambientes e as pessoas.
Condenamos às guerras, as ações terroristas, a violência nas escolas e nas ruas e, sem nos darmos conta, muitas vezes convivemos com a violência em nossos lares. São gritos de intolerância (“Não aguento mais essa bagunça!”); de inflexibilidade (“Não pode e pronto, não é não!”); de incompaixão (“Isso é bobagem de criança, quando crescer vai ver o que é problema de verdade!”). Pessoas agrupadas, vivendo ilhadas sob o mesmo teto, sem espaço para trocar gentilezas, para fazer planos, para falar sobre medos e as angústias, para compartilhar sonhos. A violência não é um fenômeno firmado apenas numa decisão individual. Invariavelmente, surge em decorrência de um contexto social favorável (ou desfavorável). O autor do bullying não escolheu apenas agredir: em algum momento descobriu que poderia fazê-lo sem ser punido e, ainda, ganhar fama e prestígio com o feito. As vítimas também não desejaram ser escolhidas. Autores e alvos reagem à violência de maneiras diferenciadas, de acordo com habilidades desenvolvidas ou modelos registrados e, ao enfrentarem essa realidade, fazem escolhas. E quem pode ser culpado por essas escolhas? Os pais? Os professores? Os colegas? A família? A escola? O grupo social?
Cada pessoa tem um repertório interno povoado de emoções, desejos e aspirações, e a educação é o caminho para transformar todos esses sentimentos em projetos de vida, o que reacende o sentido de viver. A ausência de um ideal nos afasta de projetos participativos que nos façam sentir participantes da construção do nosso tempo e de um mundo melhor. A maioria dos pais quer o melhor para os filhos. Procura fazer o máximo dentro de suas possibilidades. É comum ouvirmos expressões de surpresa como: “Onde foi que eu errei”, “Eu fiz tudo por ele”, “Sempre lhe dei tudo do bom e do melhor...” Mas a questão é: bom e melhor para quem?
Antes mesmo de nascer, a criança herda as aspirações dos pais. É inegável que filhos inteligentes, sadios, sempre educados, limpos, bem desenvolvidos, com habilidades físicas e esportivas, além de belos, despertem vaidade e orgulho nos pais. Todavia, os filhos nem sempre correspondem a esses modelos preestabelecidos. Podem não ser os melhores da classe, podem ser tímidos e retraídos, não gostar de esportes, podem ter alguma limitação física, emocional ou intelectual que os impeça de realizar as aspirações dos pais. Para o grupo de colegas, não corresponder aos padrões estabelecidos pode ser sinônimo de exclusão e ridicularização. Todos esses temas influenciam nas escolhas pessoais.
Como lidar com as próprias frustrações, somadas às frustrações dos pais? Como lidar com os próprios desejos, tendo de corresponder aos anseios dos outro? Como lidar com atitudes que, muitas vezes, reforçam o desamor e a falta de aceitação?
“Aprende alguma coisa de bom com o seu primo!”
“Você precisa aprender a ser mais educado!”
“Assim você me mata de vergonha!”
“Não sei quando você vai aprender!”
“Você não gosta nem um pouco de mim!”
“Você não merece os pais que tem!”
“Desse jeito você vai ser infeliz para o resto da vida!”
“Eu nunca tive as oportunidades que você tem tudo que conquistei foi fruto do meu esforço!”
“Se continuar assim nunca terá amigos!”
“Contarei tudo para seu pai!”
“Seus amigos não sabem quem você é realmente!”
Você não é mais uma criança “/ “Você ainda não é um adulto!”
“Veja se estuda pra ser alguém na vida!”
“Comporte-se como gente!”
As palavras proferidas da “boca pra fora”, na hora do nervosismo, não isentam os pais da culpa. Toda palavra provoca transformação interna; quando positiva, contribui para que a criança e o adolescente encontrem equilíbrio, confiança, autoconfiança e autoestima para reagir de modo saudável às frustrações da vida. Quando negativa, pode deixar vazios que talvez jamais venham a ser preenchidos positivamente ao logo da vida. As crianças sentem que tem apoio quando se acostuma a ouvir frases como estas: “Você é capaz”. “Não tem problema”. “Todo mundo erra”. “Vamos tentar de novo”. “Filho, eu já passei por isso. Fique tranqüilo. Estou do seu lado.” “Sua presença me agrada.” “Você me faz feliz.” A criança, estimulada com essas aproximações, tende a se sentir amada. Um simples “Parabéns!”, com um olhar de ternura, de cumplicidade, reconhecida, capaz de melhorar cada vez mais. Às vezes não é nem a palavra de incentivo é apenas o gesto. A criança que chega da escola antes do almoço e recebe o abraço gostoso do pai ou da mãe. O aluno que entra na sala de aula e encontra o professor que sorri e trata pelo nome.
O elogio é uma das armas mais poderosas para fortalecer autovalorização, a autoconfiança e a autoestima da criança. Cada um compartilha com o outro aquilo que traz como bagagem. Os pais são espelhos para os filhos, isto é, os filhos acreditam ser como os pais lhes dizem que são. Elogios sinceros, sem demagogias nem exageros, funcionam como prêmios, e premiações são sempre bem-vindos. Cumprir as expectativas dos pais não pode, absolutamente, ser uma forma de comprar carinho e confiança. A criança precisa estar segura de que os pais serão razoáveis diante dos desapontamentos e que serão os primeiros a encorajá-la, proporcionando oportunidades para transformar desafios em conquistas, temores em valores, erros em acertos.
Nem permissivos, nem autoritários, nem passivos, nem superprotetores. Na vida, tudo é questão de equilíbrio. Falar demais é um problema, e de menos também. Comer demais faz mal para a saúde, comer de menos também.
Um ambiente participativo tem grandes chances de propiciar o equilíbrio: é um espaço capaz de encorajar e favorecer o desenvolvimento e a manifestação de diferentes talentos habilidades. A melhor maneira de promover a participação é envolver efetivamente os filhos na dinâmica familiar com divisão de tarefas e responsabilidades, esbanjando afeto e amor. No lar participativo, os filhos exercitam a liberdade, a autonomia, a escolha, a participação nas conversas e nas tomadas de decisão, obviamente de acordo com a maturidade de cada um. Está mais comprovado que, quando mais as relações familiares são adequadas à participação e à convivência, as chances de os filhos terem um bom convívio social fora da casa são maiores. É preciso, portanto, que cada família encontre o equilíbrio entre estabelecer regras progressivas e compartilhadas e compreender as dificuldades enfrentadas pelos filhos. Regras sem compreensão tornam o ambiente autoritário e repressivo. Compreensão sem regras molda um ambiente permissivo.
O ambiente participativo se constrói com a presença, o modelo e o diálogo. Pais presentes, não em quantidade de tempo, reconhecem pelo olhar que algo não está bem. Os pais não devem incentivar os filhos a revidarem piadas e os maus-tratos. Essa prática gera mais violência e acaba produzindo consequências perigosas que podem acabar em tragédia. Entretanto é importante munir os filhos de conselhos que favoreçam o enfretamento pacífico.
Da criação fica a essência. Amar para sempre, respeitar para sempre, cuidar para sempre, acolher para sempre, orientar para sempre, caminhar lado a lado até quando o sempre existir, talvez esse sempre permita mais do que possamos imaginar (vão-se os pais, ficam os exemplos). Pais têm uma tarefa que é para sempre.
TRECHOS DO LIVRO: CHALITA, Gabriel. Pedagogia da Amizade. São Paulo: Editora Gente, 2008. |
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